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Cristiny On Line

SONETO XIV
Tradução: Manuel Bandeira 
Ama-me por amor do amor somente
Não digas: «Amo-a pelo seu olhar,
O seu sorriso, o modo de falar
Honesto e brando. Amo-a porque se sente
Minh'alma em comunhão constantemente
Com a sua.» Porque pode mudar
Isso tudo, em si mesmo, ao perpassar
Do tempo, ou para ti unicamente.
Nem me ames pelo pranto que a bondade
De tuas mãos enxuga, pois se
Secar
De chorar, teu amor pode ter fim!
Ama-me por amor do amor, e assim
Me hás de querer por toda a eternidade.
-Elizabeth Barrett Browning-
O fogo que na branda cera ardia,

O fogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciência fez despejo,
e remetendo com furor sobejo
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
[a] apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve.
Namoram se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
-Luis Vaz de Camões-

"Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo"
-Sophia de Mello Breyner Anderson -
PUDOR

Vens, e não sonho mais
Quebra-se a onda do penedo austero.
E o mar recua, sem haver sinais
De que te quero.
-Miguel Torga-




DE JOELHOS

"Bendita seja a Mãe que te gerou."
Bendito o leite que te fez crescer.
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama, pra te adormecer!
Bendita essa canção que acalentou
Da tua vida o doce alvorecer...
Bendita seja a Luz, que inundou
De luz, a Terra, só para te ver...
Benditos sejam todos que te amarem,
As que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão fervente e louca!
E se mais que eu, um dia, te quiser
Alguém, bendita seja essa Mulher,
Bendito seja o beijo dessa boca!!
-Florbela Espanca-
Eternamente sua
Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
-Tatiana Mattos-
A tua voz na primavera
Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!
Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo beijo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!
Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...
Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!
-Florbela Espanca-
Caixinha de música

impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
-Ana Mafalda Leite -
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Para Erico Verissimo
O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.
Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado...
Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!
E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranqüila de um açude...
[Mario Quintana; A Rua dos Cataventos]
Soneto de Borboletas!

As borboletas, pousam
Onde pousa o meu olhar
Tu és a flor sorridente
Que despertou o meu amar!
As borboletas saltitantes
Vem na manhã fazer sorrir
As Rosas e as Margaridas
Que só Tu, fazes florir!
As borboletas engrandecem
O cenário, no amanhecer
E nos beijos envaidecem...
...Os pássaros belos a voar
As borboletas, pousam
Mas só Tu, sabes (me) amar!
Léa, Na Estrada. 18-04-2007. 11:26



A Sonetista Morta

Quando a lua dos sonetos ocultar
O brilho que foquei nas minhas retinas
Estarei prontamente com bela sina
A remir todos os medos que fiz brilhar!
Já sem forças às mãos estenderei em prece
Um soneto derradeiro com flores de sal
Que das lágrimas flori sem ter o mal
A roer minhas veias em pobre messe!
A mortalha dos loucos hei de vestir!
À tardinha recolherei varal d'estrelas...
E nuas, minhas mãos acariciarei...
A pena que na vida sempre toquei
E fiz do Universo, meu ar, minha veia!
Morri sem medo, sonetos despi!
(Ledalge,11 de março de 2008)
História antiga
No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...
Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...
Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,
E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...
[Raul de Leôni]
" Quero o colo da mãe poesia, numa troca sem pudor, sem meias palavras, em tudo sou intensa."
(Ledalge)




A Janela e o Sol
"Deixa-me entrar, - dizia o sol - suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.
Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende...
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende."
E, fechando mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: "Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abri-me!
E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!"
Alberto de Oliveira
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ßorbolet@ @zul
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*Ser mulher *
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor...
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
*Gilka Machado*

Só Por Hoje?
Só por hoje?
Não quero louvores.
Não mandem flores, não entoem loas,
nem ao menos recitem um canto.
Só por hoje?
Esmola recusada.
Quero sim , nossa fêmea- condição humana, respeitada.
Só por hoje?
Um dia é pouco... um dia é nada.
É no todo dia, que desejo louvadas:
-A mulher mãe, a mulher amante, a mulher amiga, a mulher esteio,
a mulher companheira, a mulher operária, a mulher da rua,
a mulher rica, a mulher pobre, a mulher fraca, a mulher forte.
Dispenso adulos com datas marcadas.
Não somos um apêndice, não somos bibelôs, somos sim integrante parte.
Parte da família, parte do trabalho, parte da criação,
parte da renda, parte da produção.
Parte da História.
E parte não é pedaço, é componente essencial do todo,
sem o qual, a vida ficaria nos desbalanceados.
De que vale um dia no calendário?
Só por hoje? E nos outros Hojes?
Quando:
- Uma mulher é discriminada, uma mulher é estuprada,
uma mulher é desprezada, uma mulher é espancada,
uma mulher é assassinada.
O que nos falta não é festa, o que nos falta é o resgate da dignidade de mil mulheres, permanentemente violentadas.
O que nos falta é o reconhecimento validado, de que a liberdade,
a igualdade, por nós conquistadas,
sejam por todas as mulheres, vivenciadas.
Não importa a raça, não importa o credo, não importa a classe social,
somos cidadãs ,e como tal, merecemos ser tratadas.
Meu grito é por todas as mulheres, que ainda padecem exploradas,
por uma sociedade de cara maquiada.
Meu grito é pela mulher que aceita os açoites, mortalmente calada.
Recolham suas flores, calem sua vozes, esta festa não é necessária.
Nosso dia é sempre.
Sem distinções , sem deferências, sem diferenças.
Festejemos sim, um pacto:
Vamos construir um tempo novo, seguir juntos a mesma estrada,
homens e mulheres, de mãos dadas?
Para esta festa, por favor, quero ser convidada.
( Nana Merij )




Soneto da última estação
Esta que vem do mar por entre os ventos,
Sacudindo as espumas dos cabelos,
Vem molhada de azul nos pensamentos,
Seu corpo oculta a ilha dos segredos.
Vem e dança ao andar sobre as areias
Úmidas sob os passos e os desejos,
Onde as ancas são ondas em cadeias
Infinitas de luz contra os espelhos.
Nem precisa de flor nem de perfume,
Ela é a própria essência do ciúme,
Feita de mito e se fazendo estrela.
Vem – dança – e passa aos fogos do verão
– Fantasia da última estação.
Explodiu na vertigem da beleza.
REFLEXÕES

Homem! um dia para mim partiste,
colhendo-me no horror da plenitude
de uma penúria em que eu medrava, triste,
qual flor de neve em meio a erma palude.
Desde então, com prazer, sempre, seguiste
os desfolhos da minha juventude;
e o tempo faz que para mim se enriste
melhor teu trato cada vez mais rude.
Se fiel a ti o corpo meu persiste,
a alma idealiza o amor, sonha-o, se ilude...
guardes-me, embora, de perfídia em riste!
À pertinácia do teu trato rude,
o amor se fez minha virtude triste
e meu pecado cheio de virtude!
[Gilka Machado]





SONETO DA GRANDE DESPEDIDA!
Vou partir para distante, mas não sei se vou voltar,
Não esqueço um só instante, o quanto pude te amar!
Relembro ainda os momentos, que ao teu lado eu passei,
Bem caída nos meus braços, no amor que não neguei!
Vou partir para distante, mas sentindo a solidão,
Levarei tua lembrança, dentro do meu coração,
Como um botão desabrocha, e se transforma numa flor,
Eu abri meu coração, te dei todo o meu amor!
Estas lágrimas que descem, tecem o teu lindo rosto,
São provas do meu amor, e do quanto por ti sofro,
Se eu pudesse nesta hora, pediria a aurora,
Que o sol que aos montes mora, te trouxesse sem demora,
Para eu partir contigo! E pra não sentir saudade,
Contigo na eternidade, viveria a toda a hora!
[Manoel Lúcio de Medeiros]

A menina e a flor
A menina apreciava uma flor
No jardim, nos detalhes descobria
De onde formava o todo que fazia
Causar nos teus olhos tão grande amor.
E a flor admirava a menina, a cor
Nos olhos da menina reluzia
A admiração. A flor via a inocência
Deste olhar tão cheio de resplendor.
O que te causa tanta admiração?
- perguntou a flor. Logo respondeu
A menina: Esta tua perfeição.
Minha beleza encanta os olhos seus
A tua, enche os olhos e o coração
- disse a flor que mais nada esclareceu.
[Frederico Chilio]
(...)É o tempo, o tempo que leva a vida
Que chora e choro na noite triste.
É a mágoa, a queixa mal definida
De quanto existe, só porque existe.
(Fernando Pessoa)




Versos! Versos! Sei lá o que são versos…
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz. cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma.
Versos!… Sei lá! Um verso é teu olhar,
Um verso é teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!
Meus versos!… Sei eu lá também que são…
Sei lá! Sei lá!… Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez…
Versos! Versos! Sei lá o que são versos..
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que não crês!…
Florbela Espanca - Trocando olhares - 29/07/1916



Horas breves de meu contentamento

Horas breves de meu contentamento
Nunca me pareceu quando vos tinha,
Que vos visse mudadas tão asinha
Em tão compridos anos de tormento.
As altas tôrres, que fundei no vento,
Levou, em fim, o vento que as sostinha;
Do mal que me ficou a culpa é minha,
Pois sôbre cousas vãs fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece:
Tudo possível faz, tudo assegura;
Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura!
Por um pequeno bem, que desfalece,
Um bem aventurar, que sempre dura!
-Luís Vaz de Camões-

A MINHA AVÓ
Minh'alma vai cantar, alma sagrada!
Raio de sol dos meus primeiros dias...
Gota de luz nas regiões sombrias
De minha vida triste e amargurada.
Minh'alma vai cantar, velhinha amada!
Rio onde correm minhas alegrias...
Anjo bendito que me refugias
Nas tuas asas contra a sina irada!
Minh'alma vai cantar... Transforma o seio
N'um cofre santo de carícias cheio,
Para este livro todo o meu tesouro... -
Eu quero vê-lo, em desejada calma,
No rico santuário de tu'alma...
- Hóstia guardada n'um cibório de ouro! -
-Auta de Souza -
"Hoje escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!"
(Mário Miranda Qintana)



O amor antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.
O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.
Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
a antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.
Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.
-Carlos Drummond de Andrade-

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
(...)-Cecília Meireles -



Poema

Belos olhos que fingem não me ver
Mornos suspiros, lágrimas jorradas
Tantas noite em vão desperdiçadas
Tantos dias que em vão vi renascer;
Queixas febris, vontades obstinadas
Tempo perdido, penas sem dizer,
Mil mortes me aguardando em mil ciladas
Que o destino me armou por me perder.
Risos, fronte, cabelos, mãos e dedos
Viola, alaúde, voz que diz segredos
À fêmea em cujo peito a chama nasce!
E quanto mais me queima, mas lamento
Que desse fogo que arde tão violento
Nem uma só fagulha te alcançasse.
- Louize Labé -(Tradução Sergio Duarte)

PORQUE…
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
[ Sophia de Mello Breyner ]




Charneca em flor
Enche o meu peito, num encanto mago,
O frêmito das coisas dolorosas...
Sob as urzes queimadas nascem rosas...
Nos meus olhos as lágrimas apago...
Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!
E nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E, já não sou, Amor, Sóror Saudade...
Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor!
-Florbela espanca-
O mundo em silêncio e, em algum lugar, tua carne ainda ocupa o centro de mim, teu nome se reveza entre meus olhos e minha boca, sem que eu saiba que forma ele finalmente terá. Tem garras, o teu nome. Tem também um sumo que arde quando escala a garganta e me põe essa dor paralisante nas mãos. O pior em cada coisa é não saber se ensurdeceste à minha voz, o pior em tudo é pressentir que estás desertando de mim e que tudo seca, tudo murcha e se despetala em ausência. Sou o retrato bruto da dor, aqui posta de braços abertos à espera dos teus olhos. Sou eu mesma a dor refundada, delicadamente urdida sobre uma frágil tecitura de memória, imóvel e dócil, como só a tristeza pode compor ao corpo. Espero ínfima, mansa e imolada inseta na teia pela tua fome, ou teu abandono. -Ticcia-




